Ela estava ali, na minha frente. Seu corpo pálido e gelado encontrava-se deitado em um belo caixão de madeira escura... Seu rosto nunca pareceu tão sereno como agora. Pode parecer loucura minha, mas seus lábios até pareciam repuxar-se em um sorriso sincero e inocente; exatamente como ela costumava fazer quando me via, de longe, caminhando em sua direção.
Eu consigo agüentar a chuva no teto desta casa vazia, isso não me incomoda. Eu posso segurar algumas lágrimas agora e depois apenas as deixar rolar. Eu não tenho medo de chorar de vez em quando. Mesmo pensando que continuar sem você me chateia, há alguns dias, como agora e novamente, em que eu finjo que estou bem. Mas não é isso que me incomoda.
Deixei minha mão direita repousar sobre as dela, que estavam juntas sobre seu colo, enquanto acariciava seu rosto com a outra mão. Sentindo, pela última vez, a maravilhosa maciez de sua pele. Fiquei ali durante um tempo, tocando seu rosto, na esperança inútil de que ela acordasse e chamasse meu nome. Na esperança inútil de que a mulher que eu amava voltasse para mim, para que eu não precisasse viver sem ela.
O que mais dói foi estar tão perto, e ter tanto pra dizer, e ver você indo embora... E nunca saber o que poderia ter sido. E não ver que amar você é o que eu estava tentando fazer.
Eu nunca havia dito a ela que eu a amava. Não com todas as letras. Tenho certeza de que era isso que ela precisava: alguém para estar ao seu lado e dizer que ela era a mulher ideal. Alguém para fazê-la sentir-se bem... Alguém para amá-la como ela merecia. Eu poderia ter sido esse alguém, mas não tive coragem o suficiente para fazê-lo. Tive medo de magoar não só a mim, mas a ela. Tive medo de feri-la. Ela sempre fora tão delicada... Mas tão forte ao mesmo tempo! Tão sozinha... Mas cheia de amor e felicidade para quem quisesse. Um coração tão grande que era quase impossível de caber dentro daquele peito.
É difícil lidar com a dor de perder você em todo lugar que eu vou, mas eu estou fazendo isso. É difícil forçar o sorriso quando eu vejo nossos velhos amigos e estou sozinho. É ainda mais difícil me levantar, trocar de roupa, viver com esse arrependimento. Mas eu sei que se pudesse fazer isso novamente eu trocaria, daria todas as palavras que eu salvei em meu coração, que eu não disse.
Ali, ao nosso lado, eu conseguia reconhecer várias pessoas. Nossos amigos mais próximos, todo de mãos dadas, presenciavam a cena em que eu me encontrava. Via-se tristeza nos olhos deles... Angústia e dor escondidas atrás das lágrimas lutando para se mostrarem. Tanto as minhas lágrimas quanto as deles escoriam sem cessar, em um ritmo demasiadamente acelerado. Resolvi aceitar a culpa que me sufocava sem nenhuma cerimônia. Abaixei a cabeça e sussurrei em seu ouvido: “eu poderia ter dito a você que a amava. Eu poderia ter passado com você – da maneira que você queria - os últimos momentos de sua vida. Da maneira que nós dois queríamos. Eu podia ter falado. Mas agora é tarde... Eu já não posso mais dizer nada... Nada além desses sussurros que logo se perderão no tempo, no vento, na lembrança. Você ainda pode me ouvir, querida? Espero que, onde quer que esteja você continue olhando por mim... Por que eu sempre olharei por você... Assim como prometi”.
O que mais dói foi estar tão perto, e ter tanto pra dizer, e ver você indo embora... E nunca saber o que poderia ter sido. E não ver que amar você é o que eu estava tentando fazer.
(Jaqueline Alana).

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